- Com licença, você poderia acender o cigarro?
- Pois não?
- Você poderia fazer a gentileza de acender o cigarro? Essa falta de fumaça no ambiente está me incomodando.
- Mas eu não quero acender o cigarro. Eu tenho o direito de não fumar.
- E eu tenho o direito de não que conviver com a sua falta de hábito.
- Que absurdo! Não existe nenhuma lei que me obrigue a acender o cigarro.
- E só por causa disso eu vou ter que sofrer os efeitos colaterais do seu não-fumo?
- E que efeitos são esses?
- Preconceito. Querida, não sei se você sabe, mas preconceito mata.
- Não vejo como o meu preconceito possa fazer tão mal a você.
- Só o seu não, mas o seu, o dela, o dele, o dele ali...
- E você prefere morrer de câncer no pulmão a morrer de preconceito?
- Mas é claro. Preconceito causa muito mais sofrimento. Primeiro acaba com o lado social do meu corpo, depois corrói a minha auto-estima e por fim causa automutilação. É esse o fim horrível que você quer?
- Não, mas ninguém aqui está com preconceito comigo.
- Mas comigo sim.
- Isso é problema seu.
- Ah, então você não quer acender o seu cigarro, EU sofro os efeitos colaterais disso e o problema é meu?
- Exatamente.
- É, tem gente que simplesmente não sabe viver em sociedade.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
A Casa
Desde que me conheço por gente a casa de vovó está caindo. Construção temperamental, ela nunca quer ser consertada. Você arruma uma janela, ela bambeia o telhado e inunda o piso, você remenda o telhado e o piso apodrece. A primeira parte da casa a quebrar foi meu avô. Quebrou que não tinha mais jeito, não tinha outro que encaixasse, a casa ficou sem avô. Depois o cachorro espanou. Normal, estava passado demais. Vovó tampouco quis outro, essas coisas de velho: “não se faz mais Banzés como antigamente”. Daí em diante, a coisa só descambou. A geladeira caiu a mais de 30 anos e até hoje manca da perna esquerda. Mas não estragou como o papagaio. Esse sim não fala mais nada e não há peça de reposição que dê jeito. Modelo antigo, não se vende mais, dizem até que é proibido. O rádio e meu tio, assim como o papagaio, já não cantam. Ambos pifaram e, vez ou outra, soltam alguns chiados inaudíveis. Como eu disse, coisa de construção antiga. O encanamento já era e o orgulho também. Sem encanamento e sem orgulho próprio, todos tomam banho de caneca, ali mesmo no quintal de cimento quebrado, em uma bacia de metal torto. A casa não acha ruim. Era bem isso que ela queria, invocada, jogando rebocos na cabeça dos outros como se não houvesse problema. O fato é que ela não gosta de muita gente, então quase ninguém faz questão de entrar mais ali. Tudo cheira a velhos erros e a vida mofada. Para a vida da minha avó já não há remédio, foi corroída pelas beiradas, deixada em ruínas e largada lá para os anos subirem na carcaça. Mas, apesar de tudo, a casa resiste, esperando que o tempo acabe com do único pilar que a mantém em pé. Afinal, é inevitável: não importa o quanto demore, um dia a casa cai.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Uso Capião
- Mãe, perdi meus miolos.
- Como assim perdeu seus miolos?
- Perdi, ué.
- Mas isso é impossível.
- Diga isso a eles quando os encontrar.
- Querido, olhe nos meus olhos e ouça bem:...AAAAAAH! Seus olhos estão transparentes, o que aconteceu?
- É porque não tem nada atrás. Já disse: perdi meus miolos.
- Pois temos que achá-los já.
- Como?
- Vamos refazer seus passos. Onde você esteve antes daqui?
- Huuum, no banheiro...
- Será que...?
- Não, não, eu só fui tomar banho.
- Ufa, menos mal. E antes?
- Antes eu estava ao computador.
- Ok, então vê se procura por lá enquanto eu vasculho o quarto.
- Mãe, achei.
- Cadê? Onde?
- Bem, na verdade não achei, mas acho que já sei o que aconteceu com eles. Olha esse e-mail que eu recebi:
“Caro usuário,
Informamos que iniciamos, a partir de hoje, um processo legal de digitalização de miolos. Devido ao desuso constante do bem em questão e à submissão total às idéias veiculadas pela internet, consideramos os seus miolos parte da reserva inoperante do nosso sistema de dados, pela lei de Uso Capião.
Att.,
WWW
- E agora?
- Agora eu não tenho miolos.
- E o que você consegue fazer sem miolos, meu filho?
- Tudo, menos pensar por conta própria.
- E como uma pessoa consegue viver sem pensar por conta própria?
- Não sei.
- Complicado.
- Pois é.
- Hum... E aí?
- E aí o que?
- Tá sentindo alguma diferença?
- Não, nenhuma. Talvez seja o caso de a gente esperar mais um pouco.
- Ok.
- Ok...
- E agora?
- Nada.
- Nadinha?
- Não. Acho que não vai fazer tanta falta assim.
- Pelo visto o melhor é a gente parar de ficar esperando e ir ver televisão.
- Ok, o que está passando de bom?
- Nada, só uma mensagem que fica rodando na tela: “Cara telespectadora, informamos que bla bla bla”.
- Bom, melhor que nada.
- É, melhor que nada.
- Como assim perdeu seus miolos?
- Perdi, ué.
- Mas isso é impossível.
- Diga isso a eles quando os encontrar.
- Querido, olhe nos meus olhos e ouça bem:...AAAAAAH! Seus olhos estão transparentes, o que aconteceu?
- É porque não tem nada atrás. Já disse: perdi meus miolos.
- Pois temos que achá-los já.
- Como?
- Vamos refazer seus passos. Onde você esteve antes daqui?
- Huuum, no banheiro...
- Será que...?
- Não, não, eu só fui tomar banho.
- Ufa, menos mal. E antes?
- Antes eu estava ao computador.
- Ok, então vê se procura por lá enquanto eu vasculho o quarto.
- Mãe, achei.
- Cadê? Onde?
- Bem, na verdade não achei, mas acho que já sei o que aconteceu com eles. Olha esse e-mail que eu recebi:
“Caro usuário,
Informamos que iniciamos, a partir de hoje, um processo legal de digitalização de miolos. Devido ao desuso constante do bem em questão e à submissão total às idéias veiculadas pela internet, consideramos os seus miolos parte da reserva inoperante do nosso sistema de dados, pela lei de Uso Capião.
Att.,
WWW
- E agora?
- Agora eu não tenho miolos.
- E o que você consegue fazer sem miolos, meu filho?
- Tudo, menos pensar por conta própria.
- E como uma pessoa consegue viver sem pensar por conta própria?
- Não sei.
- Complicado.
- Pois é.
- Hum... E aí?
- E aí o que?
- Tá sentindo alguma diferença?
- Não, nenhuma. Talvez seja o caso de a gente esperar mais um pouco.
- Ok.
- Ok...
- E agora?
- Nada.
- Nadinha?
- Não. Acho que não vai fazer tanta falta assim.
- Pelo visto o melhor é a gente parar de ficar esperando e ir ver televisão.
- Ok, o que está passando de bom?
- Nada, só uma mensagem que fica rodando na tela: “Cara telespectadora, informamos que bla bla bla”.
- Bom, melhor que nada.
- É, melhor que nada.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Aquele que sou
Sabe quem eu sou? Sou aquele que sobe aos teus altos e desce em teus autos, sabe não? Aquele que te apara as pontas, que te acerta as contas e lhe consegue perdão. Eu mesmo. Ando por aí a esmo esperando seu chamado - nem que seja uma centelha - feito assim meio de esguelha, cochichado de lado.
Sou eu que te serro as grades, que te ponho em liberdade quando ninguém mais te confia. Te busco no lodo em que te amua, te jogo na boca da rua, mas comigo ninguém te trancafia. Eu sou salvação, falo mesmo, é assim que me chamo. Pois onde outros usam armas, a mim basta a palavra para que me declares amo.
Amo sim, amo o que sou. E cobro seus bens e sua vida, apenas isso, em troca do que faço. E se erras com outrem não julgo, se fogem de ti eu os caço. Sou o que você procura, na rua da amargura, aquele que salva você. Sou isso e tudo mais, desde as palavras banais: mãe, passei na OAB.
Carol Rosa
Sou eu que te serro as grades, que te ponho em liberdade quando ninguém mais te confia. Te busco no lodo em que te amua, te jogo na boca da rua, mas comigo ninguém te trancafia. Eu sou salvação, falo mesmo, é assim que me chamo. Pois onde outros usam armas, a mim basta a palavra para que me declares amo.
Amo sim, amo o que sou. E cobro seus bens e sua vida, apenas isso, em troca do que faço. E se erras com outrem não julgo, se fogem de ti eu os caço. Sou o que você procura, na rua da amargura, aquele que salva você. Sou isso e tudo mais, desde as palavras banais: mãe, passei na OAB.
Carol Rosa
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Liquidação de Nextel
RRR. Oi? Heim? Fala, tô no ônibus. PIIIF. Claro, claro, to indo aí. Me espera. Saí de casa bem cedo só pra isso, peguei o ônibus das oito horas. PIIIF. Heim? OI-TO HO-RAS. OOOOOI-TO. RRR. É o pior horário. Lotadaço, não dá nem pra respirar. PIIIIF. Repete, a gorda do meu lado ta roncando. PIIIF. Repete de novo que agora ela tá reclamando no meu ouvido. Gorda é foda. RRR. PIIIF. É FODA, não EU FODO. Nem ferrando, tá louco? Se é pra botar pra foder, pego logo a gostosa da frente. Aliás, to quase lá. PIIIF. É, ralando tudo aqui. E agora ela deu pra olhar pra trás, acho que tá gostando. Se o viado do motorista continuar a fazer curva fechada, logo logo ela está é embaixo de mim. RRR. PIIIF. Pois é. Me lembrou uma mulher aí com quem eu ando saindo. PIIF. Não, você não conhece. PIIF. Não conhece, juro. PIIIF. Tá bom, vou te contar uma coisa. Mas você sabe que eu te considero pra caramba, né? PIIIF. RRR. Tô comendo sua mulher. PIIIF. TÔ COMENDO SUA MULHER. RRR. PIIIF. Não, nem toda vez, imagina. Às vezes eu levo ela no swing e a gente troca. PIIF. É, troca. De mulher. PIIIF. É, a sua mulher. PIIIF. Como assim cancelado? Eu já estou no ônibus. RR. PIIF. Pô, camarada. Saio cedo de casa, pego um ônibus cheio de nordestino piolhento, ardo minhas hemorróidas nesse banco, agüento o cecê do babaca ao lado, ouço os gritos dessa criança catarrenta na minha frente e você cancela tudo por causa de mulher? RRR. PIIIF. Tira do viva voz. PIIIF. TIRA DO VIVA VOZ. PIIIF. Isso, tira logo. RRR. PIIIF. Obrigado. Só queria dizer que nossa amizade acabou, mas odeio expor minha intimidade.
Carol Rosa
Carol Rosa
Segredo
Posso te contar um segredo? Eu tenho medo do escuro. Não sei o motivo. Sei que não marco ponto no breu, nem confio em estrelas que se esvaem sem aviso prévio. Não quero fazer parte de algo que não sei o que é, quem está, ou como. Sabe-se lá por que. Uma teoria, produto das tremedeiras e suores noturnos, é a de que absorvo luz por osmose. Afinal, buracos – não me cabe enumerá-los por questão de pudor – tenho aos montes. Mas não creio que luzes entrando pela minha traseira possam causar iluminação interior. Não. Eu gosto sim do escuro da noite, só não quero fazer parte dele. E não são pelos fantasmas também. Não me amedronta alma penada que se valha de luz apagada para assombrar os vivos. Tampouco larápios pouco vivos, que condicionam seu sucesso a um mero interruptor. Correntes, já não guardamos em casa desde o dia em que minha família libertou seu último escravo. E esse, pobre coitado, nem chegou a conhecer a luz elétrica para fazer proveito de sua ausência na danação eterna. Parece lógico que é ilógico sentir-se assim, mas sinto, e pronto, e ponto. O escuro, essa entidade quase onipresente, tão presente e ausente de tudo o mais. É isso que me bota as pernas bambas e os olhos vidrados, buscando um ponto, único que seja, que me arranque do preto-azulado, malgrado, maltratante, andante, que é grande sem sequer ser. Nada é o que é ou deixa de ser o escuro. É por isso que peço, peço não, impeço que você apague essa lanterna. Não o convide para cá. Ou apague a lanterna, mas acenda as luzes e me tire do escuro, nos tire do ausente, nos faça presente. É isso que quero. Veremos tudo no claro, o filme se fará mais claro, o projetista entenderá. E parem de jogar pipoca, a luz está apagada, mas ainda sinto. Juro. Está tudo muito escuro, eu não entendo o que há.
Carol Rosa
Carol Rosa
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Bip Bop
A gente ouve o que se ouve.
A gente vê o que se vê.
Na gente há o que se houve.
A gente lê o que se lê.
A gente come o que se come.
A gente pede o que se pede.
A gente pede o que se come.
A gente come o que se pede.
A gente lambe o que se lambe.
A gente esconde mas se lambe.
A gente lambe o que se esconde.
A gente lambe e se esconde.
A gente fala o que se fala.
A gente fala o que se escreve.
A gente escreve o que se fala.
A gente fala e reescreve.
A gente pensa o que se pensa.
A gente pensa que entende.
A gente entende que se pensa.
A gente pensa e não entende.
A gente vê o que se vê.
Na gente há o que se houve.
A gente lê o que se lê.
A gente come o que se come.
A gente pede o que se pede.
A gente pede o que se come.
A gente come o que se pede.
A gente lambe o que se lambe.
A gente esconde mas se lambe.
A gente lambe o que se esconde.
A gente lambe e se esconde.
A gente fala o que se fala.
A gente fala o que se escreve.
A gente escreve o que se fala.
A gente fala e reescreve.
A gente pensa o que se pensa.
A gente pensa que entende.
A gente entende que se pensa.
A gente pensa e não entende.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Zé Brasileiro
A vida de Zé Moleza
É uma grande ambigüidade,
Pois se foge da tristeza,
Não se vê felicidade.
E o salário do Moleza?
Não é grana de verdade.
Só lhe vale a sobremesa,
Não responsabilidade.
Todo dia acorda cedo,
Coisa de trabalhador.
Mas trabalho lhe dá medo,
Então paga de ator.
Chega logo no trabalho
Dando abraços no povão.
Mas seu plano lhe é falho,
Se perguntam sua função.
Minha função? – diz o Zé
Minha função é complicada.
Acontece é que o mané
Na verdade não faz nada.
Fazer nada não é fácil,
Requer muita atenção.
Nisso o Zé é muito ágil,
Parte logo pra ação.
Se chega cliente bravo,
Querendo uma explicação,
Para o Zé não há entravo
Em recitar o seu bordão.
Eu batalho o dia inteiro
Pra manter essa espelunca
Porque eu sou um brasileiro
Porque não desisto nunca.
É uma grande ambigüidade,
Pois se foge da tristeza,
Não se vê felicidade.
E o salário do Moleza?
Não é grana de verdade.
Só lhe vale a sobremesa,
Não responsabilidade.
Todo dia acorda cedo,
Coisa de trabalhador.
Mas trabalho lhe dá medo,
Então paga de ator.
Chega logo no trabalho
Dando abraços no povão.
Mas seu plano lhe é falho,
Se perguntam sua função.
Minha função? – diz o Zé
Minha função é complicada.
Acontece é que o mané
Na verdade não faz nada.
Fazer nada não é fácil,
Requer muita atenção.
Nisso o Zé é muito ágil,
Parte logo pra ação.
Se chega cliente bravo,
Querendo uma explicação,
Para o Zé não há entravo
Em recitar o seu bordão.
Eu batalho o dia inteiro
Pra manter essa espelunca
Porque eu sou um brasileiro
Porque não desisto nunca.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Cordel do Cornudo
Não se sabe bem e ao certo
Que doença ele tem,
Mas a fofoca no inferno
É que o Diabo não está bem.
Foi aí que começou
A balbúrdia no Além.
Se o tinhoso sai em férias,
É preciso entrar alguém.
O Diabo está cabreiro.
É um medo que ele tem:
Ver seu reino dominado
Pelo cara de Belém.
Pôs anúncio no jornal
Pra tentar achar alguém:
“Inimigos na caldeira.
Diabinhas no harém”.
Primeiro chegou o Lula,
“Masss” havia um porém.
Pra dar ordens no inferno,
É preciso falar bem.
O Maluf trouxe idéias:
Uma ponte e um trem.
“Pra cair na minha cabeça?
Cê nem vem que aqui não tem”.
Fernando Henrique tinha planos,
Privatizar todo o Além.
“Fazer cotas do inferno?!
E vender pra Jerusalém?!”.
Roberto Jefferson tem talento
Mas a boca não contém
Num discurso tão maldoso
Terminar dizendo “Amém”?
O Bush era renomado,
Mas o Diabo não quis também.
“O homem pode ser mau,
mas matou Saddam Hussein”.
Acabaram-se os candidatos
E o Diabo não achou ninguém
Todo político quer ser ele
Todo político está aquém.
Que doença ele tem,
Mas a fofoca no inferno
É que o Diabo não está bem.
Foi aí que começou
A balbúrdia no Além.
Se o tinhoso sai em férias,
É preciso entrar alguém.
O Diabo está cabreiro.
É um medo que ele tem:
Ver seu reino dominado
Pelo cara de Belém.
Pôs anúncio no jornal
Pra tentar achar alguém:
“Inimigos na caldeira.
Diabinhas no harém”.
Primeiro chegou o Lula,
“Masss” havia um porém.
Pra dar ordens no inferno,
É preciso falar bem.
O Maluf trouxe idéias:
Uma ponte e um trem.
“Pra cair na minha cabeça?
Cê nem vem que aqui não tem”.
Fernando Henrique tinha planos,
Privatizar todo o Além.
“Fazer cotas do inferno?!
E vender pra Jerusalém?!”.
Roberto Jefferson tem talento
Mas a boca não contém
Num discurso tão maldoso
Terminar dizendo “Amém”?
O Bush era renomado,
Mas o Diabo não quis também.
“O homem pode ser mau,
mas matou Saddam Hussein”.
Acabaram-se os candidatos
E o Diabo não achou ninguém
Todo político quer ser ele
Todo político está aquém.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Problemas antigos, soluções modernas
- Amor, nosso filho está usando cocaína.
- Como você sabe?
- Ele faz parte da comunidade no orkut “Eu uso cocaína”.
- Vamos tirar o computador dele.
- Já fiz isso.
- E então?
- Não adiantou. Peguei uma mensagem no celular dele dizendo que usava cocaína.
- Vamos tirar o celular dele.
- Também já tirei.
- E aí?
- Aí ele saiu e voltou para casa com o olho vermelho.
- Vamos trancá-lo no quarto.
- Isso eu também já fiz. Mas adiantou menos ainda. Alguém passou a droga pela janela.
- E o que você fez?
- Acorrentei ele na cama.
- E isso funcionou?
- Acho que sim, mas como ele não pode ir até o banheiro, o quarto virou um verdadeiro esgoto.
- É, acho que não tem outro jeito. Vamos ter que educá-lo.
- Como você sabe?
- Ele faz parte da comunidade no orkut “Eu uso cocaína”.
- Vamos tirar o computador dele.
- Já fiz isso.
- E então?
- Não adiantou. Peguei uma mensagem no celular dele dizendo que usava cocaína.
- Vamos tirar o celular dele.
- Também já tirei.
- E aí?
- Aí ele saiu e voltou para casa com o olho vermelho.
- Vamos trancá-lo no quarto.
- Isso eu também já fiz. Mas adiantou menos ainda. Alguém passou a droga pela janela.
- E o que você fez?
- Acorrentei ele na cama.
- E isso funcionou?
- Acho que sim, mas como ele não pode ir até o banheiro, o quarto virou um verdadeiro esgoto.
- É, acho que não tem outro jeito. Vamos ter que educá-lo.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Cotidiano
- A rotina te pega de surpresa.
- Não é verdade.
- Como você pode ter tanta certeza?
- Faz anos que, sempre que vou ao trabalho, minha mulher diz que vou acabar tendo algum tipo de rotina. E não houve um só dia em que isso aconteceu.
- E como ela pode saber, se não vai ao trabalho com você?
- Eu conto a ela todos os dias, quando chego em casa.
- Não é verdade.
- Como você pode ter tanta certeza?
- Faz anos que, sempre que vou ao trabalho, minha mulher diz que vou acabar tendo algum tipo de rotina. E não houve um só dia em que isso aconteceu.
- E como ela pode saber, se não vai ao trabalho com você?
- Eu conto a ela todos os dias, quando chego em casa.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Reza braba
- Ó Senhor, se estiveres me ouvindo dê-me um sinal.
- Fala.
- Ahhh! Quem é você?
- Deus
- Deus?!
- É, Deus. Fale logo o que quer que eu não tenho tempo.
- Senhor, eu pequei. Eu enfiei uma garrafa na bunda. Me perdoe, por favor.
- Por enfiar a garrafa na bunda? E por que é que enfiar uma garrafa na bunda seria pecado?
- Não sei, Senhor. É?
- Me diz você. Eu não tenho vindo muito à igreja, não estou inteirado dessas coisas.
- Bem, Senhor. O padre considera isso uma ofensa ao Senhor.
- A mim? Mas a bunda é sua.
- Mas foi o Senhor que fez.
- Não seja por isso. Pergunte a um fabricante de privadas se ele quer saber tudo o que se passa dentro dos produtos que faz.
- Mas, Senhor. Se não é responsabilidade do Senhor me perdoar, de quem é?
- Sua, porra.
- Minha?
- Claro. Quem disse que eu tenho responsabilidades? Vocês inventaram isso porque não sabem viver direito. E olha que eu fiz de tudo pra ajudar. Primeiro eu criei a vida, então vocês ficaram entediados e eu criei a morte. Aí vocês passaram a vida esperando a morte, então eu criei os órgãos sexuais. E o que vocês fizeram? Criaram a responsabilidade. E pior, atribuíram a mim. Se um vizinho seu diz que conhece algum artista de cinema, vocês pedem prova. Mas se um mendigo de saiote diz que sou eu, vocês acreditam de primeira. E depois perguntam porque eu não apareço por aí fazendo showmício.
- Mas, Senhor. Todos nós temos consciência de uma força maior que rege o mundo.
- Claro que têm. O nome disso é mídia. E essa é que está mais longe de ser criação minha. Se eu dou pêlos, ela diz pra raspar. Se eu dou inteligência, ela prega a ignorância. Se eu dou pinto, ela prega abstinência. Se eu dou o envelhecimento, ela prega a juventude eterna. Se eu dou a bunda, ela inventa o pecado.
- Então quer dizer que o pecado não existe, Senhor?
- Existir, existe, mas foram vocês que inventaram. Mais uma ilusão barata das massas.
- E como eu faço pra viver fora dessa ilusão, Senhor?
- Simplesmente viva. Pare de pensar tanto. Pare de ouvir os outros mais que a si mesmo. Saia dessa igreja, pegue outra garrafa, enfie na bunda e seja feliz.
- Sim, Senhor. Muito obrigado. Adeus, Senhor.
- E mais uma vez um mendigo de saiote salva a humanidade. Padreeee, ô padre, me arruma um pratinho de comida aí, vai.
- Fala.
- Ahhh! Quem é você?
- Deus
- Deus?!
- É, Deus. Fale logo o que quer que eu não tenho tempo.
- Senhor, eu pequei. Eu enfiei uma garrafa na bunda. Me perdoe, por favor.
- Por enfiar a garrafa na bunda? E por que é que enfiar uma garrafa na bunda seria pecado?
- Não sei, Senhor. É?
- Me diz você. Eu não tenho vindo muito à igreja, não estou inteirado dessas coisas.
- Bem, Senhor. O padre considera isso uma ofensa ao Senhor.
- A mim? Mas a bunda é sua.
- Mas foi o Senhor que fez.
- Não seja por isso. Pergunte a um fabricante de privadas se ele quer saber tudo o que se passa dentro dos produtos que faz.
- Mas, Senhor. Se não é responsabilidade do Senhor me perdoar, de quem é?
- Sua, porra.
- Minha?
- Claro. Quem disse que eu tenho responsabilidades? Vocês inventaram isso porque não sabem viver direito. E olha que eu fiz de tudo pra ajudar. Primeiro eu criei a vida, então vocês ficaram entediados e eu criei a morte. Aí vocês passaram a vida esperando a morte, então eu criei os órgãos sexuais. E o que vocês fizeram? Criaram a responsabilidade. E pior, atribuíram a mim. Se um vizinho seu diz que conhece algum artista de cinema, vocês pedem prova. Mas se um mendigo de saiote diz que sou eu, vocês acreditam de primeira. E depois perguntam porque eu não apareço por aí fazendo showmício.
- Mas, Senhor. Todos nós temos consciência de uma força maior que rege o mundo.
- Claro que têm. O nome disso é mídia. E essa é que está mais longe de ser criação minha. Se eu dou pêlos, ela diz pra raspar. Se eu dou inteligência, ela prega a ignorância. Se eu dou pinto, ela prega abstinência. Se eu dou o envelhecimento, ela prega a juventude eterna. Se eu dou a bunda, ela inventa o pecado.
- Então quer dizer que o pecado não existe, Senhor?
- Existir, existe, mas foram vocês que inventaram. Mais uma ilusão barata das massas.
- E como eu faço pra viver fora dessa ilusão, Senhor?
- Simplesmente viva. Pare de pensar tanto. Pare de ouvir os outros mais que a si mesmo. Saia dessa igreja, pegue outra garrafa, enfie na bunda e seja feliz.
- Sim, Senhor. Muito obrigado. Adeus, Senhor.
- E mais uma vez um mendigo de saiote salva a humanidade. Padreeee, ô padre, me arruma um pratinho de comida aí, vai.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Toma-lá-dá-cá
- Eu quero ser bonito.
- Pois não. Quão bonito?
- Completamente. Quero ser admirado pela minha beleza.
- Hum, isso vai custar caro.
- Você parcelam?
- Sim, mas só tem um detalhe. Precisamos de uma garantia de pagamento.
- Que garantia?
- Seu cérebro.
- Meu cérebro? Eu não vou colocar meu cérebro no prego.
- Então não vai ficar bonito.
- Não tem outro jeito?
- Tem. Nascer bonito, mas vejo que esse não é o seu caso.
- Não diga sem saber. Eu posso ter nascido bonito e ficado assim depois.
- Se fosse assim você não hesitaria em empenhar seu cérebro.
- Por que não?
- Querido, não existe ex-drogado conformado. Não existe ex-alcoólatra conformado. Não existe ex-bonito conformado. Você não pode tirar um vício de alguém e achar que vai ficar tudo bem.
- Ok, eu não sou um ex-bonito e pelo visto não vou ser um futuro bonito. Não vejo vantagens em trocar meu cérebro por beleza.
- Mas têm. Muitas vantagens. Além das óbvias, claro. Por exemplo, a sua beleza terá prazo de validade estabelecido. Dizemos a você exatamente quando ela vai acabar. Já o seu cérebro, ninguém sabe. Já tivemos casos de perder cérebros por desuso em apenas dois anos na nossa caixa de penhor.
- E quando é que o prazo de validade da minha beleza acaba?
- Na velhice. Infelizmente a beleza que vendemos só funciona acoplada à juventude. Mas também não há problemas quanto a isso. Ao comprar a sua beleza o senhor recebe TOTALMENTE DE GRAÇA uma ilusão de juventude e uma ilusão de beleza para usar juntas na velhice.
- Nesse caso é de se pensar. Mas e quando eu acabar de pagar? Posso pegar meu cérebro de volta?
- Pode sim. Só não garantimos que ele estará funcionando bem. Sabe como é, muito tempo parado... o cérebro não é tão forte e durável quanto a beleza.
- Bom, então está fechado. Onde eu assino?
- Aqui. Obrigada.
- Só mais uma dúvida. Que garantia eu tenho de que vocês não venderão meu cérebro enquanto estiverem com ele?
- Não se preocupe, não é do nosso interesse. Se o senhor fechou esse negócio, quer dizer que ele já não vale grande coisa mesmo.
- Pois não. Quão bonito?
- Completamente. Quero ser admirado pela minha beleza.
- Hum, isso vai custar caro.
- Você parcelam?
- Sim, mas só tem um detalhe. Precisamos de uma garantia de pagamento.
- Que garantia?
- Seu cérebro.
- Meu cérebro? Eu não vou colocar meu cérebro no prego.
- Então não vai ficar bonito.
- Não tem outro jeito?
- Tem. Nascer bonito, mas vejo que esse não é o seu caso.
- Não diga sem saber. Eu posso ter nascido bonito e ficado assim depois.
- Se fosse assim você não hesitaria em empenhar seu cérebro.
- Por que não?
- Querido, não existe ex-drogado conformado. Não existe ex-alcoólatra conformado. Não existe ex-bonito conformado. Você não pode tirar um vício de alguém e achar que vai ficar tudo bem.
- Ok, eu não sou um ex-bonito e pelo visto não vou ser um futuro bonito. Não vejo vantagens em trocar meu cérebro por beleza.
- Mas têm. Muitas vantagens. Além das óbvias, claro. Por exemplo, a sua beleza terá prazo de validade estabelecido. Dizemos a você exatamente quando ela vai acabar. Já o seu cérebro, ninguém sabe. Já tivemos casos de perder cérebros por desuso em apenas dois anos na nossa caixa de penhor.
- E quando é que o prazo de validade da minha beleza acaba?
- Na velhice. Infelizmente a beleza que vendemos só funciona acoplada à juventude. Mas também não há problemas quanto a isso. Ao comprar a sua beleza o senhor recebe TOTALMENTE DE GRAÇA uma ilusão de juventude e uma ilusão de beleza para usar juntas na velhice.
- Nesse caso é de se pensar. Mas e quando eu acabar de pagar? Posso pegar meu cérebro de volta?
- Pode sim. Só não garantimos que ele estará funcionando bem. Sabe como é, muito tempo parado... o cérebro não é tão forte e durável quanto a beleza.
- Bom, então está fechado. Onde eu assino?
- Aqui. Obrigada.
- Só mais uma dúvida. Que garantia eu tenho de que vocês não venderão meu cérebro enquanto estiverem com ele?
- Não se preocupe, não é do nosso interesse. Se o senhor fechou esse negócio, quer dizer que ele já não vale grande coisa mesmo.
Geração Barbie
- Essa é a Barbie. Ela vem com mini-saia para atrair o Ken, maquiagem para enfeitiçar o Ken e sutiã para seduzir o Ken.
- Essa é a Barbie alternativa. Ela vem com mini-saia rasgada para atrair o Ken, maquiagem exagerada para chamar a atenção do Ken e sutiã de renda para seduzir o Ken.
- Já essa aqui é a Barbie feminista. Ela vem com mini-saia para atrair o Ken, maquiagem para esnobar o Ken e sutiã queimado para intrigar o Ken.
- Essa outra é a Barbie independente. Ela vem com micro-saia para implorar a atenção do Ken, maquiagem leve para disfarçar e sem sutiã.
- E aquelas ali?
- Aquelas ali são as Susis, uma nova categoria para aquelas que tentam ser a Barbie e não conseguem.
- E você tem alguma que não seja e não queira ser a Barbie?
- De verdade? Não. No fundo todas querem ser, de um jeito ou de outro.
- Está certo. Obrigado mesmo assim.
- Ei, espere.
- Pois não?
- Por que não tenta a loja de bonecas? É aqui do lado da agência de acompanhantes.
- Essa é a Barbie alternativa. Ela vem com mini-saia rasgada para atrair o Ken, maquiagem exagerada para chamar a atenção do Ken e sutiã de renda para seduzir o Ken.
- Já essa aqui é a Barbie feminista. Ela vem com mini-saia para atrair o Ken, maquiagem para esnobar o Ken e sutiã queimado para intrigar o Ken.
- Essa outra é a Barbie independente. Ela vem com micro-saia para implorar a atenção do Ken, maquiagem leve para disfarçar e sem sutiã.
- E aquelas ali?
- Aquelas ali são as Susis, uma nova categoria para aquelas que tentam ser a Barbie e não conseguem.
- E você tem alguma que não seja e não queira ser a Barbie?
- De verdade? Não. No fundo todas querem ser, de um jeito ou de outro.
- Está certo. Obrigado mesmo assim.
- Ei, espere.
- Pois não?
- Por que não tenta a loja de bonecas? É aqui do lado da agência de acompanhantes.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Che Brasilino - Herói Alfabetizado
- Mulher, por que nossos filhos passam fome?
- Porque são muitos. Foi você que quis ter tantos filhos. Um time de futebol, lembra? Onze jogadores.
- Eles não são jogadores. Eles têm lombriga.
- Isso aí é porque estão passando fome, Brasilino.
- Merda de idéia. O Pelé aparece na Veja botando caramiola na cabeça da gente e dá nisso.
- Larga de ser trouxa, homem. Mate ele. Vingue nossos filhos.
- E como é que eu vou matar o Pelé? Ele tem segurança, mulher.
- Bem, a final da Copa não é semana que vem? Pois arme logo um atentado. Bote uma bomba lá que vai voar Pelé e todos que estiverem jogando. É onze por onze, Brasilino, É onze por onze.
- É, mulher. Até você pensa. Pois pense aí: preciso saber de um lugar onde vendem bomba. E se é pra explodir um estádio, que seja bomba nuclear.
- Ah, mas essas coisas só na Internet mesmo. Saiu na Veja que receita de bomba nuclear na Internet é que nem receita de bolo.
- Mas e depois?
- Depois o quê?
- Depois que a bomba explodir. Faço o quê?
- Ué , Brasilino. Você tira foto do estádio explodindo e vende pra Veja. Simples.
- Pois é isso mesmo que eu vou fazer. Dou uma chegada ali na lan house, passo um tempo na oficina fazendo a bomba nuclear, tiro as fotos e semana que vem volto com o dinheiro.
- Dinheiro? Dinheiro não está com nada não. Eu li na Veja que o negócio agora é comprar ação. Ação dá mais dinheiro que dinheiro.
- Ação de empresa? Mas eu não entendo nada disso. De que empresa eu compro?
- Compra da Varig.
- É boa essa empresa?
- Só pode ser, está anunciando na Veja.
- Porque são muitos. Foi você que quis ter tantos filhos. Um time de futebol, lembra? Onze jogadores.
- Eles não são jogadores. Eles têm lombriga.
- Isso aí é porque estão passando fome, Brasilino.
- Merda de idéia. O Pelé aparece na Veja botando caramiola na cabeça da gente e dá nisso.
- Larga de ser trouxa, homem. Mate ele. Vingue nossos filhos.
- E como é que eu vou matar o Pelé? Ele tem segurança, mulher.
- Bem, a final da Copa não é semana que vem? Pois arme logo um atentado. Bote uma bomba lá que vai voar Pelé e todos que estiverem jogando. É onze por onze, Brasilino, É onze por onze.
- É, mulher. Até você pensa. Pois pense aí: preciso saber de um lugar onde vendem bomba. E se é pra explodir um estádio, que seja bomba nuclear.
- Ah, mas essas coisas só na Internet mesmo. Saiu na Veja que receita de bomba nuclear na Internet é que nem receita de bolo.
- Mas e depois?
- Depois o quê?
- Depois que a bomba explodir. Faço o quê?
- Ué , Brasilino. Você tira foto do estádio explodindo e vende pra Veja. Simples.
- Pois é isso mesmo que eu vou fazer. Dou uma chegada ali na lan house, passo um tempo na oficina fazendo a bomba nuclear, tiro as fotos e semana que vem volto com o dinheiro.
- Dinheiro? Dinheiro não está com nada não. Eu li na Veja que o negócio agora é comprar ação. Ação dá mais dinheiro que dinheiro.
- Ação de empresa? Mas eu não entendo nada disso. De que empresa eu compro?
- Compra da Varig.
- É boa essa empresa?
- Só pode ser, está anunciando na Veja.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Campanha de conscientização
- Meu nome é Roberval, sou baleeiro e estou a 3 meses sem matar uma baleia.
- Meu nome é Josilene, sou puta e estou a 5 meses sem usar um casaco de pele.
- Meu nome é Pimpão, sou um urso polar e estou a 2 semanas sem praticar canibalismo.
- Meu nome é Capitãoachamosalgo, sou um homem das cavernas descongelado e estou a 1 mês e meio sem torcer pelo derretimento das calotas polares.
- Meu nome é Chorão, sou milionário não assumido e estou a 1 dia sem jogar lixo no cinema.
- Meu nome é Bola, sou um tufo de cabelo e estou a 15 dias sem entupir a chaminé de um complexo industrial.
- Meu nome é José Armando Nascimento de Albuquerque Neto, sou político e estou a 20 dias sem gastar energia elétrica do meu gabinete.
- Meu nome é Joelma, ainda não foi descoberto de que espécie sou e estou a 46 horas sem contribuir para a poluição sonora.
- Meu nome é Claudinei, sou usuário de anfetamina e estou a 72 horas sem me reproduzir com alimentos transgênicos.
- Meu nome é Josué, sou socialista e estou a 9 horas sem pixar mensagens semi-decifráveis em muros semi-cobertos.
- Meu nome é comandante Pedro, sou ex-piloto da Varig e estou a 18 horas sóbrio.
- Meu nome é L&il@ Luxxx, sou emo e estou a 24 horas sem misturar materiais químicos no colírio.
- Meu nome é Fred-com-d-mudo, sou publicitário e estou a 20 anos reciclando idéias de anuário.
- Meu nome é Francisleide, sou ex-funcionária da BRA e estou a 1 mês sem comer alimentos inorgânicos ou orgânicos.
- Meu nome é José Adolfo, sou filho de milionário e estou a 5 semanas sem jogar ácido na cara da Josilene.
- Meu nome é Dedê, sou mãe do José Adolfo e estou a 6 semanas sem guardar o ácido do meu alisamento capilar na geladeira.
- Meu nome é...é..., sou tranceiro e estou a algum tempo sem fazer algo que eu não sei direito o que é.
- E você, o que deixou de fazer pelo aquecimento global?
- Meu nome é Josilene, sou puta e estou a 5 meses sem usar um casaco de pele.
- Meu nome é Pimpão, sou um urso polar e estou a 2 semanas sem praticar canibalismo.
- Meu nome é Capitãoachamosalgo, sou um homem das cavernas descongelado e estou a 1 mês e meio sem torcer pelo derretimento das calotas polares.
- Meu nome é Chorão, sou milionário não assumido e estou a 1 dia sem jogar lixo no cinema.
- Meu nome é Bola, sou um tufo de cabelo e estou a 15 dias sem entupir a chaminé de um complexo industrial.
- Meu nome é José Armando Nascimento de Albuquerque Neto, sou político e estou a 20 dias sem gastar energia elétrica do meu gabinete.
- Meu nome é Joelma, ainda não foi descoberto de que espécie sou e estou a 46 horas sem contribuir para a poluição sonora.
- Meu nome é Claudinei, sou usuário de anfetamina e estou a 72 horas sem me reproduzir com alimentos transgênicos.
- Meu nome é Josué, sou socialista e estou a 9 horas sem pixar mensagens semi-decifráveis em muros semi-cobertos.
- Meu nome é comandante Pedro, sou ex-piloto da Varig e estou a 18 horas sóbrio.
- Meu nome é L&il@ Luxxx, sou emo e estou a 24 horas sem misturar materiais químicos no colírio.
- Meu nome é Fred-com-d-mudo, sou publicitário e estou a 20 anos reciclando idéias de anuário.
- Meu nome é Francisleide, sou ex-funcionária da BRA e estou a 1 mês sem comer alimentos inorgânicos ou orgânicos.
- Meu nome é José Adolfo, sou filho de milionário e estou a 5 semanas sem jogar ácido na cara da Josilene.
- Meu nome é Dedê, sou mãe do José Adolfo e estou a 6 semanas sem guardar o ácido do meu alisamento capilar na geladeira.
- Meu nome é...é..., sou tranceiro e estou a algum tempo sem fazer algo que eu não sei direito o que é.
- E você, o que deixou de fazer pelo aquecimento global?
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Conversa franca
- Mãe, me empresta seu isqueiro?
- Você acha que eu estou gorda?
- É que eu preciso colocar fogo em um mendigo.
- Em uma escala adiposa de 1 a 10. Onde eu fico?
- Só um. E ninguém vai sentir falta.Fique tranqüila.
- Tranqüila como? Não está vendo esse pneu enorme aqui?
- É, pode ser. Dizem que pneus queimam rápido.
- Nessa idade não consigo queimar nada rápido não, meu filho. Pro espaço com a dieta e os exercícios. Vou fazer outra lipo. Que tal?
- É isso aí, mãe. Vamos acabar com aquele saco de banha. Foi ótimo conversar com você.
- De nada, querido. Está saindo? Não esquece o casaco.
- Você acha que eu estou gorda?
- É que eu preciso colocar fogo em um mendigo.
- Em uma escala adiposa de 1 a 10. Onde eu fico?
- Só um. E ninguém vai sentir falta.Fique tranqüila.
- Tranqüila como? Não está vendo esse pneu enorme aqui?
- É, pode ser. Dizem que pneus queimam rápido.
- Nessa idade não consigo queimar nada rápido não, meu filho. Pro espaço com a dieta e os exercícios. Vou fazer outra lipo. Que tal?
- É isso aí, mãe. Vamos acabar com aquele saco de banha. Foi ótimo conversar com você.
- De nada, querido. Está saindo? Não esquece o casaco.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Planeta dos Macacos
Quando o figurão de voz rouca anunciou a sentença em cadeia nacional, o mundo inteiro comemorou. Ou o que havia restado dele. Nesse ponto o mundo já havia se transformado em um cenário apocalíptico, era o primeiro diagnóstico com o qual todas as religiões concordavam. Um fato inédito desde o surgimento da espécie mais contraditória que já existiu.
Não há muito o que dizer do homem porque, apesar de terem demorado a admitir, nada se conhece a seu respeito. Sabe-se que o cérebro humano tem dois hemisférios, ligados pelo corpo caloso. Mas isso não significa nada. Sabe-se que a pele é o maior órgão do corpo humano. Mas isso também não significa nada. Sabe-se que os seres humanos e os chimpanzés têm 98% dos genes em comum. Mas isso significa menos ainda. O que importa mesmo são os 2%. Malditos 2%. Se não fosse por eles, o mundo ainda estaria em pé.
O grande problema foi que demoraram demais a descobrir para que serviam os tais 2%. Quando os chimpanzés começaram a resolver enigmas matemáticos e estudar espécies inferiores, já era tarde. Os artistas haviam dominado o mundo. Semanas depois, estudando cérebros dessa espécie singular, os cientistas descobriram que o que sobrava de 2% neles, faltava dos 98%. Era uma divisão simples, 1% destinado à sua arte e 1% destinado ao seu ego.
O mundo se tornou uma cópia fiel de um quadro de Picasso, e isso não no sentido figurado. Aliás, em sentido algum. Na lógica de um artista só havia um critério de avaliação de uma obra: se o autor havia sido ele ou não. E foi com essa tática de julgamento e humilhação que eles quase superaram as pessoas normais e se tornaram a raça dominante. Isso até a última reunião de países, onde o presidente da ONU decretou o extermínio de todos os artistas.
Os matemáticos comemoraram com pulinhos esquizofrênicos e os professores distribuindo boas notas à rodo, mas ninguém ousou fazer um brinde como pretexto para se encher de álcool. Isso era coisa de artista.
“Coisa de artista” passou a ser uma expressão cada vez mais rara, assim como os próprios artistas. Os que não foram capturados de início presentearam a si mesmos com mortes, por assim dizer, artísticas. Alguns pintaram seus corpos até que não houvesse um póro livre da asfixia, outros derreteram seus rostos com ácido e aproveitaram os últimos momentos para moldá-los ao seu bel prazer e, por último, havia aqueles que empalhavam uns aos outros.
O planeta-arte se transformou em um ateliê de corpos e a raça humana finalmente pôde voltar aos seus ábacos, dicionários e sistemas binários. Mas, como já foi dito, não há nada mais contraditório que o ser humano. Eles não conseguiram viver em paz. Decidiram guerrear com a espécie semelhante que, eliminados os 2% de diferença genética, passou a ser os chimpanzés. Ganhou a espécie com maior senso ético e moral.
Foi assim que os chimpanzés dominaram o mundo. Eliminaram todos os humanos e se tornaram a espécie mais inteligente, perdendo para os golfinhos por apenas 2%. Mas não seria assim por muito tempo. Um dia, um chimpanzé descobriu uma velha lata de tinta, molhou o dedo e esfregou em uma árvore. Estava dada a sentença de extinção da raça.
Não há muito o que dizer do homem porque, apesar de terem demorado a admitir, nada se conhece a seu respeito. Sabe-se que o cérebro humano tem dois hemisférios, ligados pelo corpo caloso. Mas isso não significa nada. Sabe-se que a pele é o maior órgão do corpo humano. Mas isso também não significa nada. Sabe-se que os seres humanos e os chimpanzés têm 98% dos genes em comum. Mas isso significa menos ainda. O que importa mesmo são os 2%. Malditos 2%. Se não fosse por eles, o mundo ainda estaria em pé.
O grande problema foi que demoraram demais a descobrir para que serviam os tais 2%. Quando os chimpanzés começaram a resolver enigmas matemáticos e estudar espécies inferiores, já era tarde. Os artistas haviam dominado o mundo. Semanas depois, estudando cérebros dessa espécie singular, os cientistas descobriram que o que sobrava de 2% neles, faltava dos 98%. Era uma divisão simples, 1% destinado à sua arte e 1% destinado ao seu ego.
O mundo se tornou uma cópia fiel de um quadro de Picasso, e isso não no sentido figurado. Aliás, em sentido algum. Na lógica de um artista só havia um critério de avaliação de uma obra: se o autor havia sido ele ou não. E foi com essa tática de julgamento e humilhação que eles quase superaram as pessoas normais e se tornaram a raça dominante. Isso até a última reunião de países, onde o presidente da ONU decretou o extermínio de todos os artistas.
Os matemáticos comemoraram com pulinhos esquizofrênicos e os professores distribuindo boas notas à rodo, mas ninguém ousou fazer um brinde como pretexto para se encher de álcool. Isso era coisa de artista.
“Coisa de artista” passou a ser uma expressão cada vez mais rara, assim como os próprios artistas. Os que não foram capturados de início presentearam a si mesmos com mortes, por assim dizer, artísticas. Alguns pintaram seus corpos até que não houvesse um póro livre da asfixia, outros derreteram seus rostos com ácido e aproveitaram os últimos momentos para moldá-los ao seu bel prazer e, por último, havia aqueles que empalhavam uns aos outros.
O planeta-arte se transformou em um ateliê de corpos e a raça humana finalmente pôde voltar aos seus ábacos, dicionários e sistemas binários. Mas, como já foi dito, não há nada mais contraditório que o ser humano. Eles não conseguiram viver em paz. Decidiram guerrear com a espécie semelhante que, eliminados os 2% de diferença genética, passou a ser os chimpanzés. Ganhou a espécie com maior senso ético e moral.
Foi assim que os chimpanzés dominaram o mundo. Eliminaram todos os humanos e se tornaram a espécie mais inteligente, perdendo para os golfinhos por apenas 2%. Mas não seria assim por muito tempo. Um dia, um chimpanzé descobriu uma velha lata de tinta, molhou o dedo e esfregou em uma árvore. Estava dada a sentença de extinção da raça.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Apenas mais um jornal
Era uma vez um jornal. Em cima dele, um teto empoeirado e à sua frente duas grandes olheiras. Era um belo jornal, o mais belo em muitos meses, diriam alguns. Isso devido à imagem que vinha estampada na capa. Os repórteres a chamariam de “furo” e o assassino de “vítima” . Mas ao jornal nada disso interessava. A única opinião que importava para ele era a daquela mulher desconhecida por trás das olheiras. E a reação dela foi bem diferente das esperadas.
Jornais vivem de expectativas e para ele, aquilo não era nada bom. Alguns jornais até chegavam a voltar para a banca, mas para a mesa do editor chefe, jamais.
- Minha senhora. Esse garoto é filho de uma deputada e foi cruelmente assassinado por um fugitivo perigoso. Uma bala só, certeira. Um absurdo. É por isso que ele está na capa do nosso jornal. Porque onde houver alguma injustiça contra a sociedade...
De resto, o jornal só ouviu “blá blá blá”. Já conhecia muito bem o papo do editor, estava todo estampado com ele. Queria mesmo era ouvir o que a mulher das olheiras tinha a dizer.
- Injustiça? Injustiça é colocar no jornal a foto do garoto morto em vez da foto do meu filho. Isso aí é caso perdido. Morreu, está morto. Meu filho está perdido por aí, na mão de algum safado. Já esse garoto, todo mundo sabe onde está.
Nada daquilo fazia sentido para o jornal. Para ele, só existia um filho, o da deputada. E aquela mulher não se parecia com a deputada.
É possível que o jornal tenha ficado entretido demais com a mulher das olheiras, porque só agora via que atrás dela vinha um batalhão de pessoas. Elas carregavam cartazes com a foto de outro garoto. Segundo a mulher das olheiras, haviam utilizado a foto errada na sua capa e, graças a isso, ele era um inútil.
Isso abalou a auto-confiança do jornal. Ele mal ouviu o que falavam depois. Só conseguia pensar que entre milhares de jornais, fora o único que não cumprira sua função. Agora estava ali novamente, embaixo do teto empoeirado, esquecido no canto da mesa, enquanto aquelas pessoas se reuniam em volta de uma caixa de leite. Na falta de um jornal, foi o que puderam oferecer à mulher das olheiras.
Ao jornal parecia óbvio que uma caixa de leite não valia como jornal. Enquanto estava nas prateleiras, conheceu inúmeros leitores de jornal, mas nenhum leitor de caixa de leite. Mas a mulher das olheiras só foi perceber isso muito tempo depois, quando mais e mais caixas chegavam e não havia ninguém para tomar aquele leite.
O leite azedou, assim como a mulher das olheiras. Leite tem prazo, esperança também. E logo a mulher das olheiras desabou. As olheiras finalmente se encontraram com o jornal, misturando lágrimas grossas com tinta rala. Aquela poça, que tingia o sorriso do filho da deputada de negro marcou o encontro final do que restava de um jornal com o que restou de uma mulher.
Jornais vivem de expectativas e para ele, aquilo não era nada bom. Alguns jornais até chegavam a voltar para a banca, mas para a mesa do editor chefe, jamais.
- Minha senhora. Esse garoto é filho de uma deputada e foi cruelmente assassinado por um fugitivo perigoso. Uma bala só, certeira. Um absurdo. É por isso que ele está na capa do nosso jornal. Porque onde houver alguma injustiça contra a sociedade...
De resto, o jornal só ouviu “blá blá blá”. Já conhecia muito bem o papo do editor, estava todo estampado com ele. Queria mesmo era ouvir o que a mulher das olheiras tinha a dizer.
- Injustiça? Injustiça é colocar no jornal a foto do garoto morto em vez da foto do meu filho. Isso aí é caso perdido. Morreu, está morto. Meu filho está perdido por aí, na mão de algum safado. Já esse garoto, todo mundo sabe onde está.
Nada daquilo fazia sentido para o jornal. Para ele, só existia um filho, o da deputada. E aquela mulher não se parecia com a deputada.
É possível que o jornal tenha ficado entretido demais com a mulher das olheiras, porque só agora via que atrás dela vinha um batalhão de pessoas. Elas carregavam cartazes com a foto de outro garoto. Segundo a mulher das olheiras, haviam utilizado a foto errada na sua capa e, graças a isso, ele era um inútil.
Isso abalou a auto-confiança do jornal. Ele mal ouviu o que falavam depois. Só conseguia pensar que entre milhares de jornais, fora o único que não cumprira sua função. Agora estava ali novamente, embaixo do teto empoeirado, esquecido no canto da mesa, enquanto aquelas pessoas se reuniam em volta de uma caixa de leite. Na falta de um jornal, foi o que puderam oferecer à mulher das olheiras.
Ao jornal parecia óbvio que uma caixa de leite não valia como jornal. Enquanto estava nas prateleiras, conheceu inúmeros leitores de jornal, mas nenhum leitor de caixa de leite. Mas a mulher das olheiras só foi perceber isso muito tempo depois, quando mais e mais caixas chegavam e não havia ninguém para tomar aquele leite.
O leite azedou, assim como a mulher das olheiras. Leite tem prazo, esperança também. E logo a mulher das olheiras desabou. As olheiras finalmente se encontraram com o jornal, misturando lágrimas grossas com tinta rala. Aquela poça, que tingia o sorriso do filho da deputada de negro marcou o encontro final do que restava de um jornal com o que restou de uma mulher.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Che Brasilino
Um dia Brasilino acordou inconformado. Foi assim, sem muita explicação. A vida não piorara de repente, já era desse jeito desde que Brasilino era Brasilino. Mas hoje, apenas hoje, Brasilino não era ele.
- Mulher, por que nossos filhos passam fome?
- Porque são muitos. Foi você que quis ter tantos filhos. Um time de futebol, lembra? Doze jogadores.
- Eles não são jogadores. Eles têm lombriga.
- Isso aí é porque estão passando fome, Brasilino.
- Merda de idéia. O Pelé aparece na TV botando caramiola na cabeça da gente e dá nisso.
- Mata ele.
- E como é que eu vou matar o Pelé? Ele tem segurança, mulher.
- Mata o segurança e depois mata o Pelé. Simples.
- Mas e se ele me der um tiro antes? Porque já viu, né. O cara é profissional.
- Então primeiro você mata o cara do armazém que vende balas de revolver. Quero ver esse segurança te acertar se a arma estiver vazia.
O plano não lhe pareceu ruim, mas milagrosamente falhou. Brasilino não conseguiu matar o Pelé. Tudo foi por água a baixo quando o vizinho viu a mão do entregador do armazém brotando do jardim.
Brasilino foi parar na cadeia e na capa dos jornais. De lá, contou sua vida a um repórter que escreveu a auto-biografia do Brasilino (isso mesmo: auto). O livro esgotou em todas as lojas, assim como a caneca, a camiseta e o caderno escolar. Até um grill do Brasilino foi lançado, um com um buraquinho de escoamento que, segundo o comercial, era um tiro na gordura.
Emocionado com a saga de Brasilino, um conceituado treinador de futebol se ofereceu para dar aulas aos seus filhos. Logo, metade deles foi parar em times europeus. Os que ficaram também não se deram mal. Começaram a dar palestras de como vencer na vida, sem as quais jamais venceriam eles mesmos.
Brasilino viveu bem em condicional até o dia em que foi levou um tiro na cabeça. A Associação dos Entregadores de Armazéns assumiu a autoria do atentado. Isso causou revolta na população, que se armou, tomou todos os estabelecimentos comerciais e depois o governo.
Brasilino se tornou um mito. Ele pode não estar mais vivo, mas a sua mensagem jamais morrerá. Ela pode ser resumida em apenas uma frase, mas não cabe repeti-la aqui. Todo mundo já sabe qual é mesmo.
- Mulher, por que nossos filhos passam fome?
- Porque são muitos. Foi você que quis ter tantos filhos. Um time de futebol, lembra? Doze jogadores.
- Eles não são jogadores. Eles têm lombriga.
- Isso aí é porque estão passando fome, Brasilino.
- Merda de idéia. O Pelé aparece na TV botando caramiola na cabeça da gente e dá nisso.
- Mata ele.
- E como é que eu vou matar o Pelé? Ele tem segurança, mulher.
- Mata o segurança e depois mata o Pelé. Simples.
- Mas e se ele me der um tiro antes? Porque já viu, né. O cara é profissional.
- Então primeiro você mata o cara do armazém que vende balas de revolver. Quero ver esse segurança te acertar se a arma estiver vazia.
O plano não lhe pareceu ruim, mas milagrosamente falhou. Brasilino não conseguiu matar o Pelé. Tudo foi por água a baixo quando o vizinho viu a mão do entregador do armazém brotando do jardim.
Brasilino foi parar na cadeia e na capa dos jornais. De lá, contou sua vida a um repórter que escreveu a auto-biografia do Brasilino (isso mesmo: auto). O livro esgotou em todas as lojas, assim como a caneca, a camiseta e o caderno escolar. Até um grill do Brasilino foi lançado, um com um buraquinho de escoamento que, segundo o comercial, era um tiro na gordura.
Emocionado com a saga de Brasilino, um conceituado treinador de futebol se ofereceu para dar aulas aos seus filhos. Logo, metade deles foi parar em times europeus. Os que ficaram também não se deram mal. Começaram a dar palestras de como vencer na vida, sem as quais jamais venceriam eles mesmos.
Brasilino viveu bem em condicional até o dia em que foi levou um tiro na cabeça. A Associação dos Entregadores de Armazéns assumiu a autoria do atentado. Isso causou revolta na população, que se armou, tomou todos os estabelecimentos comerciais e depois o governo.
Brasilino se tornou um mito. Ele pode não estar mais vivo, mas a sua mensagem jamais morrerá. Ela pode ser resumida em apenas uma frase, mas não cabe repeti-la aqui. Todo mundo já sabe qual é mesmo.
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